Cronica: Ela não ouve. Eu não falo direito. E ainda assim, a gente se entende.
O dilema de todos os dias
Quando eu era criança, vivia ouvindo de todos: "fala mais declarado!". Não importava se eu falava devagar, pausado ou com toda a concentração do mundo, bem que na verdade eu nao me esforçava muito mas, sempre tinha um adulto pronto pra soltar: "parece que está com um ovo na boca!" ou o infame "Parece que tá com a boca cheia de farofa". A verdade é que a minha língua nunca colaborou muito com a minha boca. Treinei com lápis debaixo da língua e ensaiei tanto que, no fim, aprendi a falar melhor. Melhor, mas não perfeitamente.
Anos depois, o tempo passou e veio a reviravolta na história: agora é minha mãe que não me entende. Literalmente. Com 86 anos, ela tem dificuldades auditivas. Comprei um aparelho auditivo novinho, moderno, daqueles que custam o preço de um eletrodoméstico 200 mil ienes. Mas ela não quer usar. Ela diz. "É desconfortável, acaba a bateria, eu consigo ouvir." Escuta, mas só o que quer, e olhe lá.
E lá vou eu, tentar conversar. Quando falo baixo, ela diz que não entendeu. Quando falo mais alto, a língua se enrola toda, minha voz desafina e sai mais embolada que arroz de panela de pressão. Ela ri. Eu suspiro. Tento de novo, sílaba por sílaba:
— MÃE... O... CAFÉ... JÁ... TÁ... PRONTO.
Ela me olha com aquele sorrisinho tranquilo e responde:
— Não precisa gritar.
— Mas a senhora entendeu?
— Não.
E assim seguimos, nessa conversa feita de repetições, risos e paciência. A mesma paciência que ela teve comigo quando eu era pequena e embolava as palavras, agora eu tento ter com ela, quando o som se perde no véu do tempo.
Porque, no fim, a gente se entende do nosso jeito. Com olhar, com gesto, com café na mesa e carinho silencioso. Mesmo que a frase não chegue inteira, o afeto espero chegar. Mesmo que a voz trave, o cuidado é fluente.
E hoje, continuo com o ovo na boca, parecendo que estou com a boca cheia de farofa. Mas quer saber? Até que combina bem com o café.

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