Japão: O Caminho sem Volta
Brasileiros encontraram emprego principalmente nas fábricas, realizando trabalhos repetitivos e muitas vezes pesados e agora desfrutam de uma ausência de profissão para retorno ao Brasil.
Há mais de quatro décadas, milhares de brasileiros tomaram a corajosa decisão de se mudar para o Japão, em busca de melhores oportunidades de vida. No entanto, após mais de 25 anos de trabalho árduo nas fábricas japonesas, muitos enfrentam um novo e inesperado desafio ao ultrapassar a casa dos 50 anos.
Vamos falar aqui sobre os problemas enfrentados por essa comunidade brasileira, destacando as dificuldades de encontrar emprego, a inflação crescente e os altos custos de vida no Japão, além do dilema de retornar ao Brasil sem uma profissão e muitas vezes sem economias.
História da Imigração Brasileira no Japão
Para começar precisamos de um contexto para entender o que foi e o que é esse movimento de migração para o Japão. O Brasil no passado, como de costume, enfrentava uma grave crise econômica que levou muitos brasileiros a procurar oportunidades no exterior. O Japão, com sua economia robusta e necessidade de mão-de-obra, tornou-se um destino atraente para os descendentes de japoneses e suas famílias. A comunidade brasileira, inicialmente composta por descendentes de japoneses (nikkeis), foi bem recebida para trabalhar em setores industriais, porém nunca foi ultrapassado esse limite, em raras exceções o único lugar reservado aos brasileiros eram as fábricas, esse contexto atualmente está mais flexível, porém para os mais velhos ainda é uma barreira, já que a maioria não consegue manter uma conversa razoável em idioma japonês, tornando assim a saída das fábricas uma barreira gigante.
Vida nas Fábricas Japonesas
Os brasileiros encontraram emprego principalmente nas fábricas, realizando trabalhos repetitivos e muitas vezes pesados. A rotina diária incluía longas horas de trabalho, frequentemente em turnos noturnos ou em famosos nikutai, que consiste em trocas de turnos a cada quatro dias em média, sem sábados ou domingos, e condições de trabalho rigorosas.
Embora os ganhos iniciais fossem atraentes, permitindo enviar dinheiro para o Brasil e melhorar a qualidade de vida de suas famílias, o trabalho nas fábricas também trouxe desafios significativos, como adaptação cultural e aprendizado do idioma, o dinheiro "fácil" em comparação com os ganhos no Brasil e ser jovem com todo o tempo do mundo a sua frente, deixou a comunidade relaxada, e os padrões de vida foram melhorando, de bicicletas a carros praticamente novos, de mini apartamentos a casas próprias, filhos chegaram, escola e muito luxos adquiridos, roupas boas, perfumes caros, acessórios e toda tecnologia que o dinheiro poderia comprar, mas o tempo passou a juventude se foi e alguns nem notaram isso.
Desafios após os 50 Anos
À medida que os brasileiros envelhecem e chegam próximos aos 50 anos ou ultrapassam essa barreira, as oportunidades de emprego diminuem drasticamente. As fábricas, que antes ofereciam estabilidade, preferem trabalhadores mais jovens e energeticamente mais aptos (não que pessoas mais velhas não energia, mas nem temos como comparar). A combinação de idade avançada e o desgaste físico do trabalho repetitivo resultam em dificuldades para encontrar novos empregos.
Além disso, a inflação crescente e o aumento do custo de vida no Japão agravam ainda mais a situação financeira dessas famílias, o que era possível comprar com o mínimo de renda no Japão, já quase não é possível de ser alcançado com horas extras, isso levando em consideração os empregos com baixo valor por hora.
Comprar, gastar e manter a vida aparentemente boa, ficou muito difícil no Japão, principalmente para aqueles com mais idade e muitas vezes com problemas de saúde que foram causados ou agravados pelas longas horas de trabalho, também temos impostos que agora são exigidos e obrigatórios no Japão, além de menor carga horária para trabalho, decretando o fim daquelas longas jornadas de horas extras. Trabalhar oito horas e depois fazer seis horas extras que rendiam um valor dobrado de salário já não é mais possível.
Um conselho que recebi do meu médico essa semana - "você precisa aprender mais o idioma, pois no Japão que está chegando, se você não falar, você será roubado" - assustador! Com essas palavras ele me mostrou os problemas que a falta de dinheiro no país deve gerar nos próximos anos para toda nossa comunidade.
O Dilema do Retorno ao Brasil
Com menos opções de emprego e salários que não acompanham o custo de vida, muitos brasileiros começam a considerar o retorno ao Brasil. No entanto, esse retorno é repleto de incertezas e medos.
Muitos não têm uma profissão definida fora do ambiente fabril e temem não conseguir se reintegrar ao mercado de trabalho brasileiro. Além disso, a falta de economias suficientes para sustentar essa transição torna a ideia ainda mais assustadora, muitos brasileiros se quer possuem o dinheiro para comprar a passagem de volta ao Brasil que atualmente pode custar para um trabalhador com poucas horas extras cerca de 8 meses de trabalho somente quardando o valor da passagem.
Outros não tem para onde voltar, seus pais já não estão por lá esperando por eles, outros perderam suas famílias ao longo desta jornada, outros a família toda está por aqui e não existe a menor chance de apoio em solo brasileiro para o retorno de todos ou mesmo de apenas um integrante da família.
A perspectiva de voltar ao Brasil sem recursos financeiros e enfrentar dificuldades de reintegração social e profissional é um dilema constante e certo para todos, tentativas frustadas de empreender também faz parte da vida de muitos brasileiros que durante estes períodos de vida no Japão gastaram suas economias em tentativas frustradas de criar seu próprio negócio no Brasil ou mesmo no Japão, seguido de falências e perda de todas as economias.
Possíveis Soluções e Apoio
Apesar dos desafios, há algumas iniciativas de apoio à comunidade brasileira no Japão. Programas de educação continuada e cursos de qualificação profissional podem ajudar a preparar os trabalhadores para novos setores, aprender o idioma também poderá ajudar para uma vida mais estável, porém com uma nova realidade de ganhos menores.
Além disso, o fortalecimento do apoio comunitário e familiar é crucial para enfrentar esses desafios, pedir ajuda para amigos também pode ser considerado, talvez seja hora de engolir o orgulho e aceitar que as coisas não deram tão certo como imaginávamos.
Organizações comunitárias e ONGs podem desempenhar um papel vital, oferecendo suporte emocional e financeiro, além de orientação para aqueles que consideram retornar ao Brasil e retomar uma vida.
Nem tudo está perdido
A comunidade brasileira no Japão enfrenta um "caminho sem volta", marcado por dificuldades econômicas e profissionais ao aproximar-se ou ultrapassar os 50 anos. A decisão de permanecer no Japão ou retornar ao Brasil é complexa e repleta de incertezas. No entanto, com apoio adequado e preparação, é possível encontrar caminhos para superar esses desafios.
Tentei trazer à tona a realidade da nossa comunidade, retirando a cortina que tampa o sol e nos faz imaginar que ainda vai dar tempo, tem o intuíto de promover a reflexão e solidariedade entre todos.
É essencial reconhecer os sacrifícios e contribuições da comunidade brasileira no Japão e trabalhar coletivamente para criar soluções que ofereçam um futuro mais seguro e estável. A solidariedade e o apoio mútuo são fundamentais para enfrentar os desafios e construir um caminho de esperança e oportunidades.
Tente outra vez
Tentar é a marca do povo brasileiro, aos que estão no Japão ou retornando ao Brasil com o peso nas costas de um futuro incerto, resta dizer que você não pode desistir, que sua cabeça não vai aguentar se você parar e desistir, o futuro é incerto, a profissão não existe, mas você não pode mudar o passado, mas pode agora neste momento, mudar seu presente e garantir um novo futuro.
Não desanime, lute com todas as forças que te restam nesta próxima década, escolha seu caminho e siga por ele e tente transformar seu "caminho sem volta" em um caminho com possibilidade de seguir, mantenha seu foco, guarde um pouco de dinheiro, o pouco de hoje pode ser o muito de amanhã, boa sorte à todos nesta longa jornada.
Te vejo no futuro e espero que possamos estar mais felizes com tudo o que vivemos.

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