Aguarde, carregando...

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes
Liliane Yoshiduka
Por: Liliane Yoshiduka
Dia 01/05/2025 00h00

Um Clássico Brasileiro de Fé, Conflito e Resistência

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes

Direção: Anselmo Duarte
Premiação: Palma de Ouro no Festival de Cannes (1962) 

Elenco

Leonardo Villar como Zé do Burro
Glória Menezes como Rosa
Norma Bengell como Marli
Dionísio Azevedo como Padre Olavo
Geraldo Del Rey como Bonitão
Othon Bastos como Repórter
Antônio Pitanga como Mestre Coca
Roberto Ferreira como Dedé Cospe-Rima
Gilberto Marques como Galego

Sobre o Filme

  • Roteiro: Anselmo Duarte (baseado na peça de Dias Gomes)
  • Gênero: Drama / Crítica social
  • Duração: 95 minutos
  • Idioma: Português

Enredo e sinopse

 Zé do Burro é um homem simples, mas de fé inabalável. Após ver seu melhor amigo, um burro de carga, à beira da morte, ele faz uma promessa a uma entidade do candomblé: se o animal se curar, ele carregaria uma cruz até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador. O burro se salva. E Zé parte, cruz nas costas, quilômetros nos pés e esperança no peito.

O que deveria ser um ato de gratidão se transforma num calvário. Ao chegar à igreja, Zé encontra as portas fechadas, não por cadeado, mas por intolerância. O padre, ao saber da origem da promessa feita a um “santo pagão”, recusa sua entrada.

 

"Essa cruz não entra aqui. Foi promessa feita a um falso ídolo." "Eu prometi levar a cruz até o altar de Santa Bárbara, e é diante dele que eu vou cair de joelhos."

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes 

 

Zé permanece nas escadarias, esperando dias, tornando-se atração da imprensa e motivo de debate público. Enquanto isso, Rosa, sua esposa, começa a se envolver com Bonitão, um cafetão, em busca de abrigo e estabilidade — uma traição silenciosa que contrasta com a fé inabalável de Zé.

 

"Sou sua mulher, tenho que ir pra onde você for."

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes

 

A presença de Zé vira notícia nacional. A imprensa o transforma em símbolo, comparando-o a Cristo, enquanto ele só quer pagar sua promessa e voltar para casa.

 

 

"Eu vim a pé e vou voltar a pé." "Não quero ser Cristo. Só quero cumprir o que prometi pela vida do meu burro."

  O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes

 

Enquanto espera apenas um gesto de acolhimento, Zé do Burro se torna um símbolo: da fé popular, da resistência, da injustiça institucionalizada. O Pagador de Promessas é mais do que a história de um homem com uma cruz — é a história de um país onde a fé do povo muitas vezes não cabe dentro das igrejas.

 

O padre insiste que Zé renuncie à promessa e abandone a cruz. A hierarquia da Igreja intervém, buscando uma saída política para o impasse — mas Zé se recusa a renegar sua fé, mesmo sob risco de prisão.

 

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes

 

""Se me liberta, não foi ao senhor que fiz a promessa. Foi à Santa Bárbara." "Não posso arriscar a vida do meu burro."

 

Quando a tensão atinge o ápice, a polícia intervém. O povo cerca a igreja. Zé insiste que só sairá se puder entrar com a cruz. Em um gesto de desespero, ele tenta forçar a entrada, mas é baleado e morre na escadaria da igreja.

 

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes

 

"Eu sou um homem pacato. Só vim pagar uma promessa." "Ninguém vai me levar preso. Só morto."

Temas e Críticas

  • Sincretismo religioso: conflito entre o candomblé e o catolicismo.
  • Hipocrisia religiosa: instituições que deveriam acolher, julgam e excluem.
  • Preconceito social: descrédito ao homem simples do campo.
  • Manipulação midiática: distorção da fé para interesses políticos.

Análise Temática

Fé vs. Instituição Religiosa

Zé representa a fé pura, popular, sincrética. A Igreja, por sua vez, encarna a rigidez institucional, negando a validade de uma promessa feita no candomblé. A dicotomia entre a religiosidade do povo e o autoritarismo clerical é o coração do filme.

 

“Foi ao altar de Santa Bárbara que prometi ir, não ao senhor.”

Preconceito Religioso e Social

O filme denuncia a marginalização dos cultos afro-brasileiros e o preconceito contra os pobres. A promessa de Zé é tratada como heresia apenas por não seguir os moldes "oficiais".

 

“Essa confusão vem do tempo da escravidão... fingiam cultuar santos católicos quando adoravam seus próprios deuses.”

Manipulação Midiática

A imprensa transforma Zé num produto: uma manchete. Ele deixa de ser um homem com fé e vira “o novo Cristo”, usado politicamente e descartado quando se torna inconveniente.

 

“A gente escolhe a cruz. Mas à noite... o jornal escolhe a manchete.”

A Traição de Rosa

Rosa é a face humana da dúvida, da sobrevivência. Ao se deixar seduzir por Bonitão, ela revela uma ruptura entre o mundo espiritual de Zé e a realidade crua de quem quer apenas sobreviver  mesmo que para isso traia quem está lutando por algo maior.

 

“Você pensa demais nas coisas. Eu só queria uma cama com colchão de mola.”

Martírio e Símbolo

Zé não busca glória, mas se transforma em símbolo involuntário de resistência, fé e confronto contra a estrutura social que oprime. Sua cruz, no fim, é mais que madeira: é a própria condição de um povo que insiste em ter voz.

Importância Histórica

Único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro até hoje. Também foi o primeiro filme sul-americano indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

Embora não siga o estilo do Cinema Novo, é considerado um marco do cinema brasileiro e uma crítica social potente.

 

Curiosidades

 

  • A cruz do filme pesa cerca de 20 quilos e foi realmente carregada por Leonardo Villar.
  • A história vem da peça homônima de Dias Gomes.
  • A igreja mostrada no filme existe e está localizada em Salvador.
  • O filme foi restaurado e relançado em 1985 como minissérie brasileira produzida pela TV Globo

“O Pagador de Promessas” segue sendo uma obra essencial para compreender a fé, o Brasil e o eterno conflito entre o povo e as instituições.

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes

O Pagador de Promessas (1962) – Palma de Ouro em Cannes


Comentários

É preciso conectar para poder comentar
Conectar

Veja também:

Confira mais artigos e vídeos do EhJapa.