Quem Tem Medo da Verdade Nua?
Capela Sistina, O beijo de Olavo Bilac e Laoconte e seus filhos. Outro dia, entre estátuas, mármores e metáforas, me lembrei de algo incômodo
Tentaram sim, tentaram remover estátuas nuas do espaço público. Diziam que era por “decência”, “bons costumes”, “proteção da família”. Mas no fundo… era só medo. Medo da Verdade nua.
Imagem Sergio Brisola
Afinal, a mentira como dizem os gregos - tem pernas curtas. E a verdade? A verdade é despida, desarmada, crua. Sem uniforme. Sem véu. Sem blindagem ideológica.
Em São Paulo, tentaram proibir esculturas com seios e genitais visíveis. Fizeram até enquete pública — como se a nudez de uma obra milenar precisasse de aprovação de cliques moralistas.
Depois, censuraram uma escultura de um beijo inter-racial. Porque ver um homem negro beijando uma mulher branca ainda parece mais ofensivo pra alguns do que a corrupção disfarçada de santidade.
(Leia a matéria da BBC)
O detalhe? As iniciativas vinham de membros da bancada evangélica. Os mesmos que dizem defender a moral cristã… mas esquecem que Cristo andava de túnica e pés descalços e nunca pediu pra ninguém esculpir cueca de bronze.
Querem vestir a arte porque a verdade incomoda.
Querem cobrir o mármore porque não aguentam ver reflexos que não sejam os deles mesmos.
E quando censuram uma estátua, não estão escondendo um corpo: estão apagando a história. Estão dizendo que o mundo precisa caber na visão limitada de quem acha que decência se mede por polegadas de tecido.
Eu vi isso acontecer. Acompanhei o debate, a hipocrisia, a palhaçada disfarçada de zelo.
Cansei.
Mas não esqueci.
E agora, com toda calma, deixo aqui meu lembrete:
Se a mentira tem pernas curtas, é por isso que ela corre tanto pra tentar alcançar a verdade antes que alguém a veja nua — como ela sempre foi.

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