Sister Rosetta Tharpe: A Madrinha do Rock and Roll
Sister Rosetta Tharpe foi uma figura revolucionária na história da música, frequentemente referida como "A Madrinha do Rock and Roll". Com sua voz poderosa, habilidades incomparáveis na guitarra elétrica e uma presença de palco magnética, ela quebrou barreiras musicais e sociais. Apesar de sua imensa influência, especialmente em artistas como Elvis Presley, Chuck Berry e Johnny Cash, sua contribuição foi subestimada por décadas. Este artigo explora sua vida, carreira e o legado que continua vivo na música moderna.
Primeiros Anos e Formação
Rosetta Nubin nasceu em 20 de março de 1915, em Cotton Plant, Arkansas, uma pequena comunidade no coração do sul dos Estados Unidos. Criada em uma plantação de algodão, ela teve uma infância humilde, mas profundamente enraizada na música gospel. Seu pai, Willis Atkins, trabalhava como colhedor de algodão e era conhecido por sua habilidade notável para cantar, algo que possivelmente influenciou o talento musical de Rosetta. Sua mãe, Katie Bell, era uma evangelista fervorosa da Igreja de Deus em Cristo, e foi ela quem introduziu Rosetta à música e à fé.
Desde muito cedo, Rosetta mostrou talento extraordinário para a música. Aos seis anos, ela já se apresentava em igrejas ao lado de sua mãe, cantando e tocando guitarra de maneira única, algo raramente visto em mulheres na época. Em 1921, Katie Bell decidiu deixar Willis Atkins e se tornar uma evangelista itinerante, levando Rosetta consigo para Chicago. Lá, mãe e filha foram expostas a uma cena musical vibrante, que mesclava blues, jazz e gospel, moldando a musicalidade que Rosetta viria a desenvolver mais tarde.

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Início da Carreira e Estilo Revolucionário
Aos 19 anos, Rosetta foi casada pela mãe com o Reverendo Tommy Tharpe, um pregador cuja intenção era usar o talento musical de Rosetta para atrair mais fiéis aos seus sermões. Esse casamento arranjado foi infeliz e durou apenas quatro anos. Após o término, Rosetta e Katie Bell se mudaram para Nova York, onde Rosetta finalmente encontrou espaço para expressar sua criatividade musical.
Em 1938, Rosetta assinou contrato com a Decca Records, onde lançou músicas como "Rock Me" e "This Train", que misturavam gospel com jazz e blues. Essa abordagem inovadora, embora controversa entre os religiosos, trouxe a ela um público mais amplo. Suas apresentações em locais como o famoso Cotton Club, frequentado majoritariamente por brancos, desafiaram as normas sociais e raciais da época.
Rosetta também inovou ao popularizar a guitarra elétrica no gospel. Seu estilo de tocar era explosivo, cheio de energia e virtuosismo, inspirando futuras gerações de músicos, incluindo guitarristas que ajudaram a moldar o rock and roll.

Parcerias e Relacionamentos
Rosetta formou uma com Marie Knight, uma talentosa cantora e pianista. Juntas, gravaram clássicos como "Up Above My Head" e fizeram turnês pelo país, enfrentando desafios sociais e culturais como uma dupla feminina sem acompanhamento masculino, algo quase inédito na época.
Há relatos de que Rosetta e Marie tinham um relacionamento romântico, um "segredo aberto" dentro do mundo do entretenimento. Além disso, de acordo com declarações de pessoas próximas, como Roxie Moore, Rosetta teve outros relacionamentos com mulheres, que foram mantidos em sigilo devido ao contexto social da época. Esses relacionamentos, embora discretos, demonstram sua coragem em desafiar normas de gênero e sexualidade em uma sociedade conservadora.
Rosetta também teve três casamentos com homens, sendo o mais longo com Russell Morrison, que se tornou seu empresário. Embora tenha ficado ao lado dele por 22 anos, amigos frequentemente o descreviam como explorador e infiel. Apesar disso, Rosetta continuou a construir sua carreira com resiliência e paixão.

Desafios na Carreira e na Vida Pessoal
Ao longo de sua vida, Rosetta enfrentou inúmeros desafios. Como uma mulher negra na América segregada, ela sofreu racismo e discriminação. Muitas vezes, era proibida de se hospedar em hotéis ou comer em restaurantes durante as turnês. Para lidar com essas dificuldades, ela viajava em um ônibus adaptado, que também servia como alojamento.
Além das dificuldades raciais, Rosetta enfrentou conflitos entre sua fé e a música secular. Embora sua mistura de gospel com blues atraísse novos fãs, ela enfrentava críticas severas de líderes religiosos que consideravam sua música profana. Mesmo assim, ela nunca abandonou sua essência artística.
Nos últimos anos, sua saúde deteriorou devido ao diabetes, resultando na amputação de uma perna. A perda de sua mãe, Katie Bell, em 1968, foi outro golpe devastador, levando Rosetta a um período de profunda depressão.
Renascimento na Inglaterra
Com a ascensão do rock and roll nos Estados Unidos nos anos 1950, a popularidade de Rosetta começou a declinar. No entanto, em 1957, o músico britânico Chris Barber a convidou para uma turnê no Reino Unido, onde encontrou um público receptivo e renovado interesse em sua música.
Uma de suas apresentações mais memoráveis ocorreu em 1964, em uma estação ferroviária abandonada em Manchester. Sob uma chuva torrencial, Rosetta encantou o público com sua performance cheia de energia, que foi transmitida pela Granada Television. Esse evento ajudou a consolidar sua influência em uma nova geração de músicos e fãs na Europa.

Legado e Reconhecimento
Sister Rosetta Tharpe deixou um legado imensurável. Sua habilidade de misturar gospel com outros gêneros e sua técnica inovadora na guitarra influenciaram diretamente artistas como Elvis Presley, Johnny Cash, Chuck Berry e Little Richard. Décadas após sua morte em 1973, Rosetta foi finalmente reconhecida com sua introdução ao Rock and Roll Hall of Fame em 2018.
Hoje, ela é celebrada como uma pioneira da música moderna, cuja influência moldou o rock and roll e abriu caminho para mulheres na música. Sua história continua a inspirar tanto músicos quanto pesquisadores interessados em compreender as raízes do rock.
Curiosidades
Rosetta foi uma das primeiras artistas a usar a guitarra elétrica de forma proeminente no gospel, tornando-se uma referência para guitarristas de rock.
Seu casamento no Griffith Stadium, em 1951, foi um evento midiático sem precedentes, com 25.000 espectadores pagando ingressos para assistir.
Apesar de ser uma estrela nos Estados Unidos, foi na Inglaterra que ela encontrou uma segunda onda de popularidade.
Suas apresentações misturavam espiritualidade e teatralidade, criando um estilo de performance único.
Sister Rosetta Tharpe foi mais do que uma musicista: ela foi uma visionária que desafiou normas sociais e musicais, abrindo caminho para gerações de artistas. Que sua influência continue a inspirar e seu nome seja lembrado como a verdadeira pioneira do rock and roll.

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