Crônica: O jardim da minha mãe e o que esquecemos de cultivar
Enquanto ainda dá tempo
Outro dia, minha casa virou uma pequena selva. Começou com alfaces. Fizemos mudas. Todas brotaram. Comprei seis vasos compridos. Replantamos 25 mudas. Ainda sobrou uma centena. Rimos. Plantamos rabanetes. Nasceram todos. Cenouras? plantamos algumas e estamos esperando brotar cada sementinha. E então vieram os chuchus. Cinco. Cinco pés. Ninguém come tanto chuchu assim, nem em uma vida. Ainda tem tomate, vagem, pepino, abóbora, kabocha e agora, claro, repolho. Ah, e semente de quiabo. Todos os dias, minha mãe pergunta o que tem plantado no vaso grande. Todos os dias, eu respondo. E, quase sempre, ela esquece. E pergunta de novo.
Minha mãe tem 85 anos. Veio morar comigo há pouco tempo. Aqui é longe da igreja, então ela só vai aos domingos. Eu levo. Espero. Trago de volta. Mesmo quando cansa. Mesmo quando ela esquece de colocar o aparelho de surdez e eu tenho que repetir tudo quatro, cinco vezes. Mesmo quando eu perco a paciência e depois, arrependida, fecho os olhos e peço a Deus um pouco mais de calma.
Todos os dias eu oro por paciência. Porque não quero fazer minha mãe se sentir sozinha, nem triste. E quando me pego impaciente, lembro que um dia será minha vez. De esquecer. De não ouvir bem. E espero que meus filhos tenham comigo o mesmo cuidado que tento cultivar agora.
Hoje, meu quintal é uma bagunça cheia de vida. Um jardim de memórias. E de repetições. E de paciência sendo testada e fortalecida. Porque a verdade é que, quando a gente cuida de quem já cuidou da gente, não está apenas devolvendo. Estamos ensinando. Plantando o que um dia esperamos colher.
E eu penso nos que já se foram. Na tia do meu marido, que faleceu dias atrás. E na outra, meses atrás nos meus irmãos que perdi há anos... Penso em como às vezes só percebemos a importância de um gesto quando não há mais tempo de fazê-lo. Eu acredito que fiz tudo que podia enquanto eles estavam vivos, e não tenho arrependimentos. Somente a saudade que nunca acaba, mas amenizou com o passar dos anos.
Meu esposo vendo todas as coisas que ela queria plantar, me disse: precisa falar pra ela que não tem espaço. Aí eu disse: coitada ela já tem idade e se ela morrer, meu primeiro pensamento seria, eu deveria ter plantado. Então farei isso enquanto ainda dá tempo.
Enquanto ainda há tempo. Essa frase ficou ecoando em mim. Enquanto ainda há tempo de responder com carinho. De levar pra igreja. De explicar pela décima vez o que plantamos no vaso. De ouvir com atenção. De pedir paciência a Deus. De amar com atitudes, não só com palavras.
Porque um dia tudo isso será saudade. E o que vamos lembrar não é se o arroz foi feito na panela elétrica ou se o café foi automático. Mas se houve carinho. Se houve tempo. Se houve entrega.
E se houve um jardim para lembrar.
Mesmo que fosse de chuchu demais.

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