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Lobisomem: Uma Lenda Milenar em Constante Mutação e seu Rastro na Imprensa Brasileira

Lobisomem: Uma Lenda Milenar em Constante Mutação e seu Rastro na Imprensa Brasileira
Redação EhJapa
Por: Redação EhJapa
Dia 17/07/2025 00h00

A ideia de seres humanos se transformando em bestas não é nova. Desde os tempos antigos, culturas ao redor do mundo cultivaram mitos sobre transformações monstruosas, normalmente ligadas à punição divina, à maldição ou ao desequilíbrio entre o instinto e a razão. O lobisomem, tal como o conhecemos hoje, é uma dessas criaturas que transcenderam fronteiras e atravessaram os séculos, assumindo diversas formas e significados. Este artigo busca ir além da mera descrição folclórica, explorando como a figura do lobisomem foi utilizada e ressignificada na imprensa brasileira dos séculos XIX e XX, revelando sua adaptabilidade como metáfora social, política e até mesmo linguística.

Origens do Mito do Lobisomem 

Na Grécia Antiga, o mito de Licaão conta que um rei foi transformado em lobo por Zeus como punição por ter servido carne humana. O termo "licantropia" vem do grego lykos (lobo) + anthropos (homem). Essa ideia de punição divina atravessa a história e se mistura à moral religiosa ao longo dos séculos.

 

Na Europa medieval, a lenda do lobisomem ganhou força com a cristianização e a demonização das crenças pagãs. Homens acusados de bruxaria também eram julgados por se transformarem em lobos, e a licantropia passou a ser vista como um pacto com o diabo. Casos documentados, como o de Pierre Burgot na França do século XVI, mostram que a figura do lobisomem era temida e, muitas vezes, condenada com a mesma severidade das bruxas.

 

Indígenas das Américas

 

Bem antes da chegada dos europeus, várias culturas indígenas das Américas já possuíam mitos sobre metamorfoses entre homens e animais. Em algumas etnias tupis-guaranis, há histórias sobre homens que se transformam em onças ou cachorros, geralmente como resultado de maldição, feitiçaria ou desequilíbrio espiritual. Essas narrativas foram, com o tempo, absorvidas e adaptadas ao imaginário europeu do lobisomem, enriquecendo o folclore que viria a se consolidar no Brasil.

A Lenda no Brasil: Consolidação e Aparições na Imprensa

No Brasil, a lenda do lobisomem se consolidou como uma fusão das tradições europeias e indígenas. A versão mais popular diz que o lobisomem é o sétimo filho homem de uma mesma família, condenado a se transformar em besta nas noites de sexta-feira de lua cheia. O mito se espalhou pelo interior do país, ganhando variações regionais e sendo tratado tanto com temor quanto com deboche.

A imprensa da época, por vezes, reportava suas aparições com um misto de seriedade e sensacionalismo. Um recorte de jornal, provavelmente do final do século XIX ou início do XX, descreve minuciosamente um lobisomem visto entre as localidades de Pilares e Inhaúma, no Rio de Janeiro, por "pessoas acima de qualquer suspeita". O relato detalha um "lobishomem perfeitamente igual aos que descrevem os contadores de historias", que aparecia às quartas e sextas-feiras. Mais notável ainda é a descrição de suas formas variadas, sendo "parecido com um cachorro" em uma noite, "tal qual um porco" em outra, e em outras com "semelhanças de bodo com grandes barbas", confirmando a diversidade morfológica da criatura no imaginário popular brasileiro.

Lobisomem: Uma Lenda Milenar em Constante Mutação e seu Rastro na Imprensa Brasileira

O impacto social era tamanho que os moradores, cansados de rezar, planejavam caçar a criatura, mostrando a seriedade com que a ameaça era percebida.

Lobisomem: Uma Lenda Milenar em Constante Mutação e seu Rastro na Imprensa Brasileira

Paralelamente às aparições reportadas, a presença de títulos como "o Lobisbomem" (com a peculiar grafia da época) em anúncios de livrarias datados de 1829 sugere que a lenda era também objeto de consumo cultural, comercializada como literatura de entretenimento e mistério em folhetos ou cordéis populares.

O Lobisomem como Avatar Simbólico e Ferramenta Retórica

Com o tempo, o lobisomem deixou de ser apenas um monstro noturno e passou a ser também um avatar simbólico — uma representação da dualidade humana: entre o civilizado e o selvagem, entre a moral e o desejo. Jornais do século XIX e início do século XX cooptaram a figura do "lobishomem" para o discurso público e político, utilizando-a como uma ferramenta retórica poderosa para zombar, denegrir ou personificar males e desvios.

Sua figura era frequentemente empregada para desumanizar e atacar moralmente figuras públicas. O religioso Frei Matheus, alvo de intensa crítica, foi sarcasticamente chamado de "felpudo lobis-homem" em um texto que o associava a algo imundo e bestial.

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De maneira similar, em um documento judicial do mesmo ano, a bizarrice e a suspeita sobre a conduta de um oficial público, ao notificar testemunhas de forma duvidosa, é equiparada a vê-las como vindas "do outro mundo, e lobishomem", sublinhando a natureza absurda e irregular da situação.

A conotação pejorativa do termo era tão forte que transcendia defeitos menores. Em um periódico de 1832 ou 1833, ao defender um Padre Vigário de acusações, o articulista admite com humor que os pés do padre tinham um "cheiro não de santidade", mas enfaticamente declara que "isso não da reito para the aplicarem o infame appelido de Lobishomem". Esta observação revela o quão grave e desqualificante era o termo, considerado um insulto de peso superior até mesmo a uma peculiaridade física.

A maleabilidade do termo Lobisomem no discurso é ainda mais notável ao se observar uma peculiar transição em colunas econômicas por volta de 1920. Há indícios de que o termo "lobista", referindo-se a indivíduos que buscavam influenciar decisões políticas ou econômicas, foi, em determinado momento, associado ou até mesmo substituído por "lobishomem". Essa convergência sugere que a prática do lobby, já percebida como obscura ou predatória em sua atuação nos bastidores, encontrou na figura do lobisomem um poderoso avatar para intensificar a crítica e o repúdio social, personificando a influência oculta e insaciável.

Essa capacidade de personificar ameaças e perigos persistiu até o século XX. Em um debate parlamentar registrado em 1922, a temida "intervenção federal" — uma questão política crucial na Primeira República — foi claramente nomeada como o "lobishomem da intervenção federal". O termo foi empregado para representar um fantasma assustador, uma ameaça que espreitava e desestabilizava o cenário político, demonstrando a consolidação da figura do lobisomem como uma metáfora de perigo e descontrole no discurso político de alto nível. 

A Transição Ortográfica: De "Lobishomem" a "Lobisomem" 

Esse uso simbólico da figura atravessou a própria evolução ortográfica da palavra. Nos jornais do século XIX e até meados do século XX, era comum a grafia "lobishomem" (ou "lobis-homem"). Esta constatação é comprovada por documentos da época: em 1959, uma crônica de carnaval ainda registra uma variação da grafia antiga, "Lobtahomem", como apelido de um cronista. Contudo, em um recorte de 1960, a crônica "A fera de Vila Isabel" de Guilherme Figueiredo já emprega consistentemente a grafia "lobisomem" para se referir a uma transformação psicológica, marcando o que parece ser o ponto de virada definitivo na padronização. Somente a partir dos anos 1960, com a consolidação da norma ortográfica brasileira, a grafia "lobisomem" passou a dominar, refletindo o som já adotado na fala popular desde muito antes e consolidando a forma que conhecemos hoje. 

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O Monstro que Fala com a Nossa Pele

 O lobisomem, como todo bom mito, não sobrevive apenas porque assusta - mas porque representa. Ele é o medo do que não controlamos em nós mesmos: o instinto, a raiva, o desejo, a vergonhosa parte selvagem que ainda nos habita. A análise dos recortes de jornais do século XIX e XX demonstra que a figura do lobisomem transcendeu o folclore puro para se tornar um 'avatar' multifacetado: um insulto mordaz, um símbolo do absurdo, uma personificação de ameaças políticas e, por fim, um reflexo das transformações linguísticas da nação. E por isso, mesmo que sua grafia mude, sua função simbólica continua intacta.

De "lobishomem" a "lobisomem", o monstro continua nos espreitando - não nas florestas, mas nas entrelinhas da nossa própria humanidade e, como vimos, nas páginas da nossa história, da nossa política e da nossa linguagem.


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