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O Grande Baile da Ilha Fiscal: Curiosidades sobre último Baile do Império Brasileiro

O Grande Baile da Ilha Fiscal: Curiosidades sobre último Baile do Império Brasileiro
Liliane Yoshiduka
Por: Liliane Yoshiduka
Dia 08/01/2025 00h00

A Festa da Ilha Fiscal, realizada em 9 de novembro de 1889, ficou marcada na história como um dos eventos mais esperado do Brasil Imperial. Planejada como um tributo à tripulação do navio chileno Almirante Cochrane, a festa acabou se tornando o último grande evento da monarquia brasileira antes da Proclamação da República, ocorrida apenas seis dias depois.

Contexto Histórico

 

Em 1889, o Brasil vivia um momento de tensão política e social. A monarquia, liderada pelo Imperador Dom Pedro II, enfrentava crescentes críticas de setores militares, políticos e da sociedade em geral. Nesse cenário conturbado, a organização de um evento tão grandioso refletia a tentativa da corte de reafirmar sua relevância e prestígio.

 

Cronograma dos Preparativos

 

Os preparativos para o baile da Ilha Fiscal foram marcados por detalhes minuciosos e adiamentos inesperados. Confira os principais marcos dessa história:

29 de abril de 1889: Iniciam-se os preparativos no palacete da Ilha Fiscal. Cerca de 300 lâmpadas incandescentes foram instaladas com globos foscos, supervisionadas pelo eletricista Sr. Léon Rodde. A primeira experiência com a iluminação foi esplêndida, destacando o brilho e a fixidez da luz elétrica.
20 de agosto de 1889: Continuam os preparativos, com a instalação de maquinários para produção de luz elétrica quase concluída. Coretos para música começaram a ser montados nos terraços do palácio da Guarda-Moria. O Almirante Cochrane já havia deixado a Ilha da Madeira, a caminho de São Vicente, sendo esperado no início de setembro.
21 de agosto de 1889: Em resposta a um incidente diplomático envolvendo o Almirante Barroso nas águas chilenas, o governo brasileiro planeja uma recepção especial para o Almirante Cochrane. A festa na Ilha Fiscal é incluída na programação oficial para reforçar os laços diplomáticos entre Brasil e Chile.
8 de outubro de 1889: Sua Alteza, o Príncipe D. Pedro Augusto, visita a Ilha Fiscal para inspecionar as obras de decoração no palácio da Guarda-Moria. Ele elogia os preparativos conduzidos pelo Comendador Hasselmann.
17 de outubro de 1889: São realizados os primeiros ensaios de luz elétrica com holofotes instalados no portão do Arsenal da Marinha, projetando luz sobre a Ilha Fiscal. Um farol também foi montado para iluminar o mar.
19 de outubro de 1889: O baile é adiado devido à morte do rei Luís I de Portugal, tio de Dom Pedro II. Em sinal de luto, alimentos preparados para a festa foram doados ao Hospital da Misericórdia e ao Asilo de Expostos e Mendicidade. Flores destinadas à decoração foram enviadas ao Almirante Cochrane.
24 de outubro de 1889: É anunciado que o baile ocorrerá no dia 4 de novembro, por designação de Sua Majestade o Imperador.
26 de outubro de 1889: A notícia destaca a colocação de retratos a óleo dos almirantes Cochrane e Groentell, trabalhos do artista Novack, como parte da decoração.
4 de novembro de 1889: Um incêndio no pavilhão da Ilha Fiscal destrói o forro de tecido tricolor, causado por faíscas de um condutor elétrico. Apesar de controlado, o incidente danifica parte das instalações, levando a um novo adiamento.
9 de novembro de 1889: Finalmente, o baile ocorre, marcando um evento histórico e glamoroso, mas com o peso de ser o último grande acontecimento do Brasil Imperial.

 

O Grande Baile da Ilha Fiscal: Curiosidades sobre último Baile do Império Brasileiro

 

Detalhes da Festa

 

A Ilha Fiscal, localizada na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, foi o palco escolhido para a celebração. Conhecida por sua arquitetura neogótica, a ilha foi preparada para receber aproximadamente 4 mil convidados, incluindo membros da nobreza, diplomatas, militares e personalidades influentes da época. Eu acho que foi preparada para receber essa quantidade de convidados, mas de acordo com a matéria da época foram emitidos 4.500 mil convites,

 

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A Decoração

A iluminação foi confiada à direção do senhor Léon Rodde, empregando o material

pertencente à extinta empresa Força e Luz que conseguiu produzir força para 700 lâmpadas

elétricas, alimentadas por três motores.

Um quarto motor, trabalhando independentemente dos três, produzia um foco de

60.000 velas, isto é, mais da metade da força projetada pelo motor da Torre Eiffel.

Projetava-se a luz sobre todas as direções, iluminando até grande distância, ora a

baía, ora a cidade.

No interior do edifício era deslumbrante o efeito das pequenas lâmpadas colocadas

em meio das flores que pendiam em festões.

Do mesmo senhor foi a iluminação a giorno, a cuja colocação presidiu arte e bom

gosto.

Realizou-se a experiência da iluminação elétrica no edifício da Ilha Fiscal e das

construções acessórias na noite de 15 de outubro. Ela foi inteiramente satisfatória e durante

mais de duas horas não diminuiu um só instante. Estiveram presentes, então, os ministros

da Fazenda e do Império, e entre outras pessoas os senhores Afonso Celso Júnior,

conselheiro Sabóia, doutor Parreiras Horta, barão de Sampaio Viana, comendadores

Hasselmann e Ferreira Sampaio, engenheiro Del Vecchio e Dr. Miranda Carvalho.

O chão era coberto por tapetes importados, e o serviço de mesa contava com porcelanas e talheres dourados.

Fontes consultadas: O País e Gazeta de Notícias, de outubro e novembro/1889.

A Programação

A noite foi animada por uma série de apresentações musicais, incluindo valsas e polcas, que encantaram os convidados. Uma das principais atrações foi a apresentação da ópera cômica "A Garota de Pariz" (La Gamine de Paris), originalmente escrita em 1841, com texto de Leterrier e Vanloo e música de Gaston Serpette. A peça foi interpretada pela atriz Hermínia Adeláide da companhia dramática Empreza Dias Braga, cujo desempenho no segundo ato, ao protagonizar uma valsa marcante, ganhou destaque e foi aclamado pelos presentes. Além disso, o espetáculo contou com o dueto "Pobre Serpente", protagonizado pelas talentosas Celina e Hércules, que emocionou o público com sua intensidade e beleza.

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Cardápio

O serviço, fornecido pela Confeitaria Pascoal, foi dirigido pelos srs. Manoel Fernandes da Silva, Marcelino Fernandes Teixeira, Manoel Lopes de Carvalho e Bernardino Ferreira Cardoso, empregados e interessados daquela confeitaria. Foi chefe dos copeiros, cujo número era de 150, o sr. Vicente Espaim. Serviram, além desses, durante a ceia, 60 trinchadores. Passaram pela copa 12.000 garrafas de vinho, licores, champanhe, cerveja, águas gasosas e minerais e outras bebidas; 12.000 sorvetes, 12.000 taças de ponche, 20 peças de açúcar para centro de mesa e 500 pratos de doces variados. Dirigiram todo o serviço da cozinha, onde trabalharam 40 cozinheiros e 50 ajudantes, os srs. João Torres e José Pequeno. Serviram-se 18 pavões, 80 perus, 300 galinhas, 350 frangos, 30 fiambres, 10.000 sanduíches, 18.000 frituras, 1.000 peças de caça, 50 peixes, 100 línguas, 50 maioneses e 25 cabeças de porco recheadas.

 

O Grande Baile da Ilha Fiscal: Curiosidades sobre último Baile do Império Brasileiro

 

A Contradição do Luxo

Apesar da grandiosidade do evento, a realidade fora dos salões era bem diferente. O país enfrentava desafios econômicos e sociais, e o descontentamento entre setores do Exército e da população crescia. Muitos historiadores interpretam a festa como um último suspiro da monarquia, incapaz de perceber a gravidade da situação política.

 

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A Coluna "Foguetes": Uma Perspectiva Humorística do Evento

Entre os diversos registros históricos sobre o Baile da Ilha Fiscal, destaca-se a irreverente e satírica coluna "Foguetes", publicada à época. Assinada por um jornalista que não foi convidado oficialmente para o evento, a coluna apresenta uma visão descontraída e, por vezes, crítica do que se passou durante a celebração. Esse relato complementa a visão oficial e nos dá um vislumbre das impressões populares sobre o evento.

Trechos da Coluna "Foguetes"

Cardápio e Petiscos: "Comemos goiabada, queijo de Minas, empadas de dobradinhas, galantino de roupa velha, carne assada com farofa, peixe ensopado com pirão, doce de coco, arroz de leite, tutu de feijão, cocada puxa, pé de moleque... uma porção de coisas boas."
Bebidas: "E as bebidas? Havia vinho branco, laranjinha, erva doce, vinho verde, licor de rosa, cerveja 'Guarda Velha' misturada com gosto de abacaxi e uma coisa que estourava como gengibirra. Só não havia água de Frontin, porque não se encontrou."
Comentários Satíricos:

"Estão pensando que é mentira? Que nós ficamos no cais Pharoux vendo a luz elétrica? Pois fomos ao baile, sim, senhores. E, por sinal, nunca vimos tão bonitos vestuários."

 

Os vestuários estão todos relacionado no anuário do Museu Imperial 1941-Vol.-02 inclusive a data de celebração das bodas de prata da princesa Isabel, que foi celebrado no dia 15 de outubro de 1889


Comentários Gerais

A coluna segue com observações humorísticas e curiosas, apresentando conversas captadas nos salões:

"Curiosos pedacinhos de ouro!"
"Construtora a 27 é comigo."
"Não chucha, meu velho, já tenho 30 por elas."
"O sorvete estava frio, mas muito gostoso."
"E de creme com canela, não é, Joaninha?" Com ovo

"Vou levar umas balas do baile para Chumbita, que não veio, coitadinha!"
Diálogos Humorísticos

"O senhor parece estar incomodado... Sente alguma dor?"

"É a espada que está me atrapalhando."
"Esteve no perigoso combate de Poribebuy?"

"Não, senhor. Eu sou capitão da guarda nacional."
"V. Ex. é a bitácula de minha vida. Mas, quando encontro em meu rumo o seu primo Juca, meto o leme de ló, retranco a barlavento, folgo a proa e viro por davante, quando não viro em roda."

"Ué, gente!"
Incidentes e Fofocas

A coluna também narra um suposto incidente familiar ocorrido na rua Visconde Sapucaí, onde membros de uma família alegaram ter sido invadidos por militares em busca de vingança contra um dos filhos da casa. O relato é recheado de dramaticidade, com descrições de gritos e lágrimas que impressionaram os vizinhos.

A coluna "Foguetes" nos oferece uma janela única para o espírito da época, revelando os bastidores e as interpretações populares de um evento tão emblemático. Apesar de sua abordagem leve e humorística, ela nos permite compreender melhor as dinâmicas sociais e culturais do Brasil Imperial em seus últimos dias.

 

Um Final Caótico e Memorável

 

Nem tudo foi glamour e perfeição no Baile da Ilha Fiscal. De acordo com relatos publicados no jornal O Paiz, o evento ficou marcado também por um verdadeiro caos em termos de objetos perdidos e esquecidos. Ramalhetes incompletos, cortinas desengomadas e até a misteriosa perda de peças do vestuário de convidados foram reportados.

O destaque entre os itens desaparecidos foi uma saia de baile descrita em detalhes na seção de achados e perdidos: "uma saia de casimira branca acolchoada de seda da mesma cor, enfeitada com arminho". O apelo da dona, Miss F..., era direto e bem específico: quem tivesse levado a peça por engano deveria devolvê-la na Rua do Carmo, nº 42. Para garantir que não houvesse dúvidas, a moradora apontava que seu nome estava gravado em um pergaminho costurado no forro da saia.

 

O Grande Baile da Ilha Fiscal: Curiosidades sobre último Baile do Império Brasileiro

 

Mas o item mais inusitado a ser deixado para trás foi, sem dúvida, um espartilho! Sim, uma senhora esqueceu essa peça essencial de sua vestimenta no evento, reforçando o tom tragicômico do desfecho do baile.

Além disso, após a festança, às 6 horas da manhã, o pessoal da limpeza encontrou um verdadeiro tesouro de objetos abandonados: 37 lenços, 24 cartolas e chapéus, 8 raminhos de corpete, 3 coletes de senhoras e, curiosamente, 17 cintas-ligas. Esse inventário bizarro dá uma dimensão das cenas de alegria, descuido e caos que marcaram a madrugada do baile.

Mesmo entre tantas perdas e confusões, o Baile da Ilha Fiscal permanece como um marco histórico que, embora recheado de luxo, também trouxe à tona as peculiaridades humanas — e até um certo desleixo cômico — que tornam qualquer evento verdadeiramente inesquecível.

 

O Desfecho

 

Seis dias após a festa, em 15 de novembro de 1889, o Brasil vivenciou a Proclamação da República. Dom Pedro II e sua família foram exilados, marcando o fim de uma era. A Festa da Ilha Fiscal, tão glamorosa em sua concepção, tornou-se um símbolo do fim do Império Brasileiro.

Hoje, a Ilha Fiscal é um importante ponto turístico e histórico, administrada pela Marinha do Brasil. Suas instalações abrigam exposições sobre o período imperial e a história da monarquia brasileira. A festa continua a inspirar livros, peças e estudos, perpetuando sua memória como um marco na história do país.

fontes: OPaiz e Gazeta


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